
Francine Machado de Mendonça
BALANÇO E JOGOS
Tem turma que a gente é “parideira” porque colabora para estudantes resistentes se revelarem aprendizes brincantes. E outras nos formam como curinga do Teatro do Oprimido (mediadores educativos e artísticos da metodologia do teatrólogo Augusto Boal). No semestre final da pesquisa-ação Pedagogia Griô e T.O. na Educação de Jovens e Adultos, o 4o ciclo da EMEIEF Darcy Ribeiro me possibilitou exercitar o desapego. De tanto sermos cobrados pela gestão pelo que não estudamos, cheguei pesada de planejar e resumir os últimos 7 anos de pós, disciplinas como aluna especial na USP e mestrado… Mas os jovens e adultos da EJA fizeram com que abrisse mão aos poucos de sequências didáticas que já davam certo há anos, para descobrir com eles no percurso do chão de escola do Parque Novo Oratório, em Santo André, o que fazia sentido e tinha acolhida pela sala, que terminou o fundamental II no meio de 2023 (nossos semestres letivos equivalem a um ano do ensino regular).
A resistência inicial me espantava: os estudantes rejeitavam os jogos teatrais mais lúdicos, que até atores com quem trabalhei preferiam quando chegávamos à fase dos ensaios. O mestrado me ajudou a ter um espanto e “alumbramento” com minha prática e estudo, então pela primeira vez me abri mais ao que podíamos criar juntos. Recorri a um recurso que tem sido minha carta na manga (literalmente): o baralho-livro Jogos Teatrais, de Nado Grimberg. Comecei a levar cartas pré selecionadas, de jogos que a turma não rejeitaria por vê-los como infantis - é um eterno aprendizado não infantilizar a didática com eles. Esses expect-atores (que veem, propõem, discutem e intervém em cena, como propunha Boal) se revelaram improvisadores de mão cheia, porque se soltaram mais com jogos de improviso.
Provoquei para que improvisassem soluções possíveis para o principal problema que a maioria das estudantes interessadas na volta aos estudos têm: o enfrentamento do machismo e ciúme familiares. Eles não só fizeram uma cena em processo desta opressão, mas a ensaiaram por aulas e mais aulas, até apresentarmos para professores, vice-diretora, merendeiras, faxineiros terceirizados, inspetora e supervisora no pequeno teatro do pátio desta escola, na periferia de Santo André, próximo à zona leste de São Paulo. Foi o primeiro processo criativo colaborativo teatral que acompanhei nestes 8 anos na EJA, num semestre pessoalmente tumultuado, de luto e afastamento por saúde. Aprendi que nem sempre as condições ideais de temperatura e pressão geram os resultados mais potentes na arte-educação. Trocávamos de atores nos ensaios a cada semana, porque os aprendizes da EJA têm frequência irregular, devido às exclusões sociais que enfrentam para terminar os estudos. Sugeri incluirmos as músicas Maria, Maria, de Milton Nascimento e Triste, Louca ou Má, do grupo Francisco El Hombre nos ensaios e apresentação. Cantamos durante um tempo e achei curioso uma estudante comentar que a segunda música ficaria melhor com a cantora Pitty. E quando conferimos juntos o clipe Triste, Louca… me tocou uma estudante com quilinhos a mais que não se permitia dançar muito, expressar-se mais nesta linguagem no ensaio, depois de ver dançarinas acima do peso em cena na gravação desta música. No encerramento do 1o semestre letivo de 2023 a turma se apresentou, melhorou o cenário improvisado, fechou e abriu as cortinas, quis cantar só a música do Milton, os atores aprendizes mesmo incluíram as palmas cantando Maria, Maria e os próprios estudantes reagiram ao marido ciumento (único papel que não circulou entre os aprendizes)…
Talvez para quem lida com atores amadores ou profissionais, não soem conquistas tão expressivas, mas a maioria do público com quem lidamos resume assim sua trajetória escolar nas escutas iniciais de começo de ano letivo “não sei nada de artes, mas quero aprender tudo”! Toda semana esses jovens e adultos me fizeram pesquisar novos jogos teatrais (porque na maioria das salas, tenho que insistir mais nos mesmos jogos, até que se soltem mais) e a concentração deles foi melhorando no processo. Pelo segundo ano consecutivo sou semifinalista no prêmio Arte na Escola: celebro não de uma forma “marqueteira” e sim porque organizar, revisar, editar e por em perspectiva esta prática e estudo, me deu vontade grande de disseminá-lo mais (algo que me apaixonei em formações que dei depois de começar a estudar minha prática). Este site, o podcast Pegada Griô, a narração dramatizada das minhas histórias com a EJA e os vídeos de balanços deste processo são movimentos de multiplicação de minha atuação como arte educadora. Um livro de crônicas destas narrativas ainda está “no forno” e contou com ajuda de amigas e marido na revisão/ edição. Só do mestrado me ajudar a retomar o processo criativo coletivo em grupo, já é uma conquista significativa em meio à aridez escolar. Abaixo, incluí exercícios de musicalidade popular que divido com as turmas e fico encantada porque não precisamos conquistá-los para fazermos juntos - claro que se você ou seus alunos dominam mais música possivelmente não renderá aí da mesma forma. Lembrando que a maior parte do material partilhado desta pesquisa, aqui e nas redes, destina-se a estudantes sem experiência artística e mais resistentes. Me conte como chegou a você, se é da área ou ficou com vontade de conhecer mais? Aguardo sua mensagem, que pode chegar até mim pela página de contato.



